logo

Entrada História
O patrono da escola PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por António M.V.J. Matias   
Segunda, 09 Outubro 2006 07:49

                                      

António de Sena Faria de Vasconcelos Azevedo nasceu em Castelo Branco, no dia 2 de Março de 1880. Era filho e neto de magistrados. Em Outubro de 1896, iniciou os seus estudos na Universidade de Coimbra, onde obteve, em Junho de 1900, o grau de bacharel em leis, com 21 anos incompletos e, 12 meses depois, o grau de bacharel formado.Em 1902, foi para a Bélgica estudar na Universidade Nova onde chegaria a Professor Catedrático. Em 1912, funda a Escola Nova de Bièrges-Les-Wavre. Adolphe Ferrière sublinhou o valor desta escola, que usava a inteligência e a acção em vez da memória. Ferrière foi amigo e admirador de Faria de Vasconcelos. A fundação da sua escola na Bélgica, a sua participação como professor no Instituto Jean-Jacques Rousseau (Genebra, Suíça) o trabalho que prestou em Cuba e na Bolívia, onde publicou muitos livros sobre Psicologia, traduzidos para inúmeras línguas, foi muito importante. Ainda hoje é conhecido nesses países. A sua contribuição para a criação e desenvolvimento das Escolas do Magistério Primário em Cuba e na Bolívia foi, de resto, fundamental. Voltou para Portugal em 1920, aparecendo ligado à Universidade Popular Portuguesa, ao grupo “Seara Nova”, à Escola Normal Superior e à Faculdade de Letras de Lisboa. Continuou também a escrever. Faria de Vasconcelos deixou um grande número de escritos, incluindo livros, artigos de revista, textos de conferência, artigos de jornal e muitos inéditos. É a obra de um vulto insigne das Ciências Humanas e Sociais e que desenvolveu intensa actividade durante as primeiras quatro décadas do século XX, como professor, especialista, investigador, conferencista, publicista, quer em centros universitários portugueses e estrangeiros, quer dirigindo-se a públicos mais vastos e diferenciados. Entre as áreas de conhecimento a que se dedicou, encontram-se o Direito, a Sociologia, a Pedagogia e Filosofia. Com 64 anos incompletos, Faria de Vasconcelos faleceu em 11 de Agosto de 1939. Não sabemos qual teria sido a sua relação com o regime de Salazar. Participara, com António Sérgio, de uma tentativa de reforma educativa. Ferrière considerou modelar a escola que fundou e dirigiu na Bélgica. “Une École Nouvelle en Belgique” é uma obra que se encontra traduzida em inúmeras línguas, tal como outras que Faria de Vasconcelos nos deixou. A admiração que por ele existe no “Mundo Hispânico” é fácil de observar: basta falar nele na Galiza. Um dos seus livros foi distribuído por todos os professores bolivianos. Contudo, apesar de ser o mais internacionalmente conhecido dos pedagogos portugueses do movimento chamado “Escola Nova”, entre nós, se atendermos aos pouquíssimos estudos produzidos, incompreensivelmente, nunca lhe foi reconhecida a importância a que tem direito. Mais estranho ainda: a maioria das suas obras, escritas originalmente em francês ou castelhano, nunca foram traduzidas para português. Quanto às suas ideias realce-se, na mensagem pedagógica de Faria de Vasconcelos, que o centro de gravidade do processo educativo é o educando, os seus interesses, as suas potencialidades e que, neste processo, os métodos, o ambiente em que a educação se processa, ou o meio em que o educando se desenvolve têm uma importância fundamental. O autor mostra que o ensino deve emanar da própria vida, partir da realidade concreta, ligar-se ao mundo da experiência e da representação da criança, à maneira de ver infantil e partir dos interesses (espontâneos) do aluno. Dos seus escritos uma outra ideia nuclear ressalta: o conceito de educação integral, isto é, o desenvolvimento integral do ser humano na acepção de que o processo educativo deve conduzir o ser à sua plena expansão, realizando o que nele há de fundamental o desenvolvimento harmónico de todo o ser, das aptidões, das capacidades, e da dimensão moral, o gosto pelo trabalho, etc., mas alicerçado no desenvolvimento harmonioso do corpo. Pretendeu realizar uma educação pragmática, que associa o aluno à investigação e apela ao seu sentido de responsabilidade, acreditando que toda a verdadeira formação se baseia na vida. A palavra de ordem da pedagogia nova é a libertação da criança, e neste processo, o autor deposita confiança nos educandos, na aptidão para se formarem partindo deles mesmos e no respeito pela sua natureza. Defende o uso de «métodos activos» (realçando o trabalho manual e a pesquisa pessoal), uma educação genética (que se adapte à evolução), diferenciada (que atenda à desigualdade escolar e respeite as efectivas diferenças individuais). Mas neste respeito pela diferença individual não esquece a dimensão social da educação o objectivo último e que dá sentido a educação física e intelectual. E é nesta valorização da educação social ou moral que em última análise toda a preocupação reformadora de Faria de Vasconcelos deve ser compreendida, onde aponta como valores: o amor à verdade, à bondade, a beleza, à justiça, o espírito de iniciativa, de independência e responsabilidade sociais, de entreajuda, de solidariedade etc. À sua mensagem pedagógica subjaz implicitamente um modelo ou ideal de homem determinado pelo sucesso crescente da ideia de evolução no quadro do progresso científico. Do iluminismo recebe a convicção de regeneração pela educação, bem como a formação da natureza humana através duma política educativa que vise a totalidade do povo (por isso a quer estender a todas as classes sociais), e, consequentemente, o interesse pelos problemas educativos ocupa nos seus escritos formas muito diversas (através do ensino, conferências, imprensa, revistas, livros, as Universidades Populares, etc.). Não aceita autoridade fora da razão, eliminando todo o sobrenatural do campo educativo (outro ideal «das Luzes»), e do realismo pedagógico afirma a importância das línguas modernas e disciplinas técnico-científicas. Há uma ideia de síntese que percorre a sua pedagogia no valor que tem, quer para o indivíduo, quer para a sociedade, o desenvolvimento (diferenciado e harmónico) do educando, e por entender a escola organizada sobre princípios que designa “essencialmente humanos” (que deverão estar fora de todo o conceito de classe, partido, agrupação (sic) ou escola filosófica), isto é, sobre o que une as pessoas e não sobre o que as separa. Se algumas das ideias e dos projectos não tiveram a concretização idealizada pelo autor, a explicação para este insucesso ou impotência em transformar os factos está num problema que ultrapassa a educação (propriamente dita) e envolve toda a cultura e, num certo grau de análise, teremos que ver a questão da educação não como sendo pedagógica, mas política. Apesar de o autor conceber que a reforma social só é possível através da educação, na sua mensagem existe um defeito (estrutural): Faria de Vasconcelos não se apercebeu de que uma escola democrática só poderá existir num regime social e político democrático, que é impossível democratizar o ensino (como o pretendeu com as propostas que apresentou na década de 1930) num regime não democrático e que a sua mensagem só tem pleno sentido num regime de liberdade política. A educação não pode, pois, ser vista separada da política, quer dizer, da vida da cidade, das relações económicas e sociais que a constituem, da forma do seu governo. Muitas das ideias que defendeu continuam plenas de actualidade: refira-se a importância que pôs no carácter educativo da instrução, na necessidade do desenvolvimento intelectual (cultura geral) antes de se proceder ao início da formação profissional, na importância posta na formação dos professores como núcleo de todo o processo educativo defendendo, para isso, a criação das Faculdades das Ciências da Educação, refira-se que lutou pela criação dos serviços de orientação escolar e profissional nas escolas, pelos apoios pedagógicos às crianças com necessidades educativas especiais, que propôs a institucionalização do prolongamento da escolaridade obrigatória até aos 15/16 anos, a valorização da educação técnica (ou tecnológica, em linguagem de hoje), que defendeu, nas aprendizagens não escolares, a educação permanente. Mais do que buscar a justificação, a compreensão do fenómeno educativo, Faria de Vasconcelos tentou infundir um espírito novo na educação. Tratou de organizar, de elaborar propostas de lei para a reforma do sistema de instrução pública (como o haviam feito os homens da revo1ução). Procurou remediar as deficiências em matéria educativa, a precária situação dos mestres (isto desde 1902). Como os políticos progressistas, centra-se no problema da educação popular, e a sua concepção democrática da educação, baseada no princípio da igualdade, levou-o a defender o direito de todos à instrução e à educação. Do direito à educação afirmou (nos projectos) o dever do Estado de abrir escolas para o povo. Mas só está ao alcance de todos se for gratuita; além disso, concebeu-a administrada na escola laica que garanta uma moral autónoma frente a qualquer tipo de religião. O acesso aos graus superiores de instrução defendeu-o através de selecção baseada no mérito intelectual. Apesar de na sua mensagem ser uma constante o desacordo com tudo o que se passava no campo educativo, de ter criticado a escola tradicional (as péssimas condições de higiene em que a educação era transmitida, estar desligada da vida, o enciclopedismo, a falta de preparação dos professores, etc), poucos pedagogos terão defendido tão acerrimamente a educação na escola como o fez Faria de Vasconcelos. Diga-se o que se disser do autor, das suas ideias, das suas realizações, ou da sua mensagem, a verdade é que, da sua rica personalidade foram deixados traços marcantes na extensa obra que nos legou. Conhecedor invulgar do que a nível internacional se passava no campo da educação, desenvolveu entre nós (depois de o haver feito no estrangeiro) uma intensa obra de divulgação dos novos ideais educativos e dos novos planos de acção didáctica: foi um «apóstolo» da Educação Nova; desempenhou um papel de relevo na renovação dos estudos pedagógicos em Portugal; teve um trabalho colossal na montagem do I.O.P. (Instituto de Orientação Profissional) e no progressivo aperfeiçoamento dos métodos de trabalho aí realizados. A sua mensagem tem que ser considerada por quem tiver de se debruçar sobre o panorama pedagógico português que no país se desenvolveu entre os anos de 1920 e 1939, que marcam os limites em que a sua intensa actividade se manifestou. NOTA: A informação utilizada para redacção deste texto foi extraída das seguintes fontes: - A Página - Palestra proferida por A.A. Cunha, em Castelo Branco, em 28 de Maio de 2008, no âmbito da Comemoração dos vinte anos da Escola Faria de Vasconcelos.

Actualizado em Quarta, 08 Outubro 2008 22:07
 

Produzido em Joomla!. Designed by: Free Joomla Template web space Valid XHTML and CSS.